03.19Discrimino a ausência de bom senso
Criativos leitores, vejam:
Fato
Grupos homossexuais se revoltaram com a abordagem conceitual do VT (vide vídeo acima) criado pela agência paulista Almap.
Agora afirmo
A propaganda não deve carregar o fardo de ser agente de reinvenção histórico-cultural de uma sociedade. Ela é justamente o contrário, é a manifestação das idéias de um povo, é a tradução do agir e pensar social, é a evolução dos padrões de consumo e a reflexão frente às transformações naturais.
Tá, e daí? Por que falo isso?
Porque hoje eu quero discutir a hipocrisia, quero compreender a necessidade de afirmação desprovida de profundidade e refletir sobre a falta de significância em idealistas utópicos.
Mas e a relação com a propaganda?
Qualquer ação publicitária é a manifestação adaptada do cotidiano, é a resposta do que é observado a todo momento, uma sintetização dos padrões comportamentais e suas relações. Assim sendo, defenderei sempre o uso inteligente da propaganda, erguerei a bandeira da ética em qualquer ocasião, serei a favor do uso não apelativo da mensagem, mas, antes e acima de tudo, condenarei a ausência da verdade e da hipocrisia travestida de simpatia social. No marketing, ao se estabelecer metas e definir estratégias, pressupõem-se sempre a clareza de entendimento em rotinas e hábitos do público-alvo. Saber o que pensa, como se comporta e suas interações são premissas básicas para o sucesso de qualquer iniciativa. É aí, criativos, que residem os problemas, é nesse meio de campo defensivo que congestiona o moralismo idiota. Você, publicitário ou não, o que pensa sobre a campanha da Doritos vinculada acima? Você entende que é a tradução simples de uma conduta social de um público-alvo ou vê teor discriminatório e preconceituoso na mensagem? Eu creio na sinceridade. Eu vejo realidade e transcrição pura do cotidiano, em que situações embaraçosas e o questionamento irônico da sexualidade dos amigos é EXISTENTE. Se é, não posso abordar?
Questionaram-me
Se você fosse homossexual, como reagiria?
Respondi
Se fosse, preocuparia em aprofundar-me nas questões morais, políticas e sociais. Seria ativista na luta contra a promiscuidade, seria defensor da legalização jurídica da união, pensaria em repassar a sociedade o vírus do respeito e da tolerância. Se fosse, não gastaria meu tempo na procura por mensagens ocultas em todos os lugares, buscaria o respeito em virtude da minha conduta como ser humano e cidadão e me importaria em ser mais profundo ao sustentar aquilo que acredito.
Depois perguntei
. E porque não há negros na propaganda? Vamos tirá-la do ar por que é racista?
. E onde estão as mulheres? Cade os grupos feministas questionando sua ausência ?
. E porque os passageiros do banco traseiro não fazem uso do cinto de segurança?
. E as pessoas que tem alopecia aerata na juventude (queda de cabelo), deveriam impor a necessidade de alguém com o mesmo problema já que só se vê cabeludo na propaganda?
. E os pouco ricos deveriam pedir a retirada da propaganda, afinal não são todos os jovens que podem desfrutar do conforto de um carro, ou não?
Concluo
Eu sempre reflito nas inerências do contexto publicitário. A ambigüidade, a ironia e a reflexão são instrumentos que estão conectados ao universo dos criativos, muitas vezes, até inconsciente. Ressalto ainda o fato de que seremos sempre maioria ou minoria e é o bom senso com que assimilamos as decorrências dessas ocasiões que edifica o ser humano e cidadão que seremos.
Até;

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